Sodoma!
Interessante notar como um festival importante (como é Cannes) pode dar luz ao futuro de um filme – seja ele qual for. Este é o caso de Gomorra, filme italiano de Matteo Garrone que observa as entranhas da Camorra (o braço napolitano da máfia) a partir dos dramas pessoais de cinco personagens.
Garrone propõe um filme violento, entretanto ele evita o espetáculo e busca desde o início chocar o espectador com uma estética extremamente realista, suja, degradada, tenta desmistificar o glamour que o cinema sempre deu à figura do mafioso e mostra quão violento e degradante este universo pode ser, por razões muitas vezes obscuras. A câmera está sempre ligada ao personagem, muito próxima, captando suas impressões e principalmente, expressões.
Até aí a proposta de Garrone não tem nada de mais e, aliás, poderia render um grande filme. Contudo, o diretor opera uma destituição total da imagem de criar grandes sentidos ou sensações, como se temesse que daí saísse um espetáculo, mais que uma denúncia. O realizador italiano nega à imagem seu poder envolvente temendo que ela ficasse apenas impactante, sem perceber que a propriedade de envolver o espectador dentro de uma proposta audiovisual está mais ligada às diversas escolhas dentro da construção estética do filme do que restrito a um certo tipo de plano ou de corte ou uso do som. Da construção audiovisual é que se tira o sentido e ela é feita de imagens e sons. Garrone nega a Gomorra a criação de imagens e sons estéticos que, sucedendo um ao outro, criem sentido, sensações, visualizações de emoções ou idéias .
Como resultado de uma construção que se nega a impregnar-se de representação e busca a secura asséptica de um realismo brutal, as idéias flutuam em Gomorra, não se impregnam no espectador. Como exemplo a violência que é jogada ao espectador, aparece de resvalo, sempre causando confusão ao invés de tratar de uma confusão, de um fim de mundo como o título sugere? Garrone resvala em todas as suas intenções – e elas estão lá – mas seus tratamento desértico em relação aos personagens deixa o painel de sensações de Gomorra vazio, reprimindo o envolvimento audiovisual do espectador com esse universo e permitindo apenas o approach superficial – porém muito impactante – com o assunto.
Ralf Lucas