Quero ser Martin Scorsese
Interessante pensar na expectativa que eu tinha de Il Divo. Sempre imaginei um filme classicista, quadrado como a maioria das cinebiografias que saem a cada ano (mesmo advindas da Europa), com um olhar meio ultrapassado. E devo isso principalmente ao título que sempre me passou uma impressão pesarosa.
Nada mais longe da verdade em se tratando do filme de Paolo Sorrentino. Primeiro porque ele claramente tem a intenção de ser pop e, por isso, suas referências são juvenis ou pouco usuais, como a música indie, grafismos na tela, o uso irônico da música à maneira de Quentin Tarantino. Um tempero saboroso em certa medida, não podemos negar. Isso nos leva à segunda característica: Sorrentino declara ao longo do filme sua paixão e extrema vontade de ser Martin Scorsese. É inegável sua paixão pelo cineasta norte-americano, já que ele realiza planos idênticos em diversos momentos (como o plano da água efervescente no copo, tirado de Taxi Driver) ou cita situações similares aos filmes de Scorsese (o carro explodindo como em Cassino). Esta vontade de emular seu ídolo leva Sorrentino a construir seu filme com planos longos complexos, muitos movimentos de câmera ousados, uma encenação que encadeia diversos personagens. Como resultado formal, tem-se a sensação de vermos um virtuose em ação, o que aproxima o cinema de Sorrentino do de outro fã declarado de Scorsese, Paul Thomas Anderson – principalmente em Boogie Nights.
Contudo, Sorrentino trata de um tema muito pouco conhecido do público não-italiano – os meandros da política do ex-primeiro-ministro Giulio Andreotti e sua ligação com a máfia – e, por isso, recheia o filme com grafismos escritos na tela, apresentando cada uma das personagens que passam na galeria de informações do filme. Aliado ao virtuosismo do diretor, em diversos momentos tem-se a sensação de que algo passou em branco, “perdemos o chão” e com isso, o virtuosismo ganha cada vez mais destaque em detrimento da interessante história – interessa que aumenta devido à interpretação fabulosa de Toni Servillo.
Na tentativa desenfreada de ser Martin Scorsese, Sorrentino se aprofunda na emulando de características do ídolo e exagera na dose, esquecendo-se do drama. A proposta em si não é ruim – várias vezes é muito divertida – mas a realização virtuosística dela nos deixa com certo cansaço em alguns momentos, o que deixa Il Divo, no fim das contas, mais atraente do que envolvente.
Raul Arthuso
Tags: anderson, andreotti, boogie nights, cinema, divo, scorsese, sorrentino, taxi driver